Ilha de Mosqueiro, distrito de Belém que não recebe a devida atenção do poder público. Mesmo assim, resiste como paraíso. Foto de Oswaldo Forte (veja mais em https://www.flickr.com/people/oswaldoforte/)

Ilha de Mosqueiro, distrito de Belém que não recebe a devida atenção do poder público. Mesmo assim, resiste como paraíso. Foto de Oswaldo Forte (veja mais em https://www.flickr.com/people/oswaldoforte/)

As marcas britânicas no futebol da Amazônia - parte 3 (final)

Disputa do Xikunahity nos Jogos Indígenas (Oswaldo Forte/Flickr)

Os ingleses foram responsáveis pela colonização do futebol em vários países e possessões no início do século 20, mas o título de nação geradora da modalidade é da China. Há mais de cinco mil anos, durante a dinastia Ming, ocorriam pelejas com regras que lembram o bola-pé praticado na Europa medieval. Japoneses, egípcios, gregos e romanos também estão entre os pioneiros, mas a diversão com pelota já não era novidade na América quando navegantes portugueses e espanhóis aportaram no Novo Mundo. Murais pintados em Tepantitla - localidade então dominada pelos Maias, no México - 500 anos antes da expansão dos países Ibéricos mostram homens chutando bolas, provavelmente fabricadas com borracha natural.

O escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, autor de uma bela e apaixonada história do futebol em prosa – Futebol ao Sol e à Sombra (L&PM Editores, 1995) –, após longas pesquisas, listou alguns costumes de indígenas que habitavam porção da floresta amazônica que atualmente abriga o território da Bolívia: “Tem origens remotas a tradição que os leva a correr atrás de uma bola de borracha maciça, para metê-la entre dois paus sem fazer uso das mãos”.

Segundo relatos do engenheiro José Alberto Masô, autor do primeiro mapa geral do Acre, indígenas que habitavam a região no final do século 19 disputavam um jogo com regras parecidas às do futebol praticado nas praças das principais cidades europeias no início da era moderna: todos os habitantes da tribo participavam e corriam para chutar uma bola feita de látex de seringueira, em confrontos que poderiam se estender por vários dias.

Várias etnias extintas durante a colonização do território brasileiro praticavam jogos com bolas, chutes e cabeceios. Atualmente, grupos da região do rio Xingu, na divisa entre o Mato Grosso e o Pará, disputam partidas em que a pelota só pode ser golpeada com os joelhos. O Xikunahity, conhecido como futebol de cabeça, voltou a ganhar espaço entre as tribos, que se enfrentam anualmente nos Jogos Indígenas.​

Links para a reportagem completa: parte 1 e parte 2

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As marcas britânicas no futebol da Amazônia - parte 2

Reorganizadores do Grupo do Remo em 1911 (arquivo/Clube do Remo)

Belém do Pará. Em um dia perdido de 1890, funcionários ingleses da Amazon Steam Navigation Company Ltda, empresa que dominava a navegação marítimo-fluvial na Amazônia, escolheram o local onde se encontra a praça Batista Campos, no centro da cidade, para disputar o que seria a primeira partida de futebol no Brasil - cinco anos antes de Charles Miller ter voltado de estudos da Inglaterra com todos os apetrechos necessários para a prática do esporte em São Paulo e reunido amigos para a primeira pelada tupiniquim. Mas, diferente da versão oficial, não há provas sobre o bate-bola na capital paraense, uma das mais destacadas do país à época, por conta do ciclo da borracha. Contudo, há indícios que ainda geram discussões entre pesquisadores.

O jornalista Loris Baena, atualmente radicado no Rio de Janeiro, era um dos que não descartavam esta possibilidade, como destacou no capítulo 1 da primeira edição de seu livro “A verdadeira história do futebol brasileiro”. Loris, que inclusive entrevistou Charles Miller – falecido em 1953 –, argumentava que a companhia de navegação inglesa Both Line mantinha uma linha regular Belém-Liverpool e era mais rápido e econômico viajar do Pará à Inglaterra do que pegar o navio no Rio de Janeiro ou São Paulo, por exemplo. Nesta época, empresas do país europeu dominavam o cenário belenense, como a Parah Gaz Company e a Western Telegraph. “Os jogos se desenvolviam junto à atual praça Batista Campos e no largo de São Brás (hoje a praça Floriano Peixoto, no conjunto IAPI), em imensos terrenos baldios”, defendeu.

Mas Loris Baena atualmente descarta esta possibilidade. No máximo, diz ele, o Pará foi o terceiro ou segundo Estado do Brasil a praticar o futebol, ao lado do Rio de Janeiro, em 1896, um ano após a partida organizada por Charles Miller na Chácara Dilley, em São Paulo. O primeiro jogo oficialmente registrado em solo paraense ocorreu em 1906, no primeiro Campeonato do Estado, não finalizado por desavença entre as equipes. O Parah Foot-Ball Club venceu o Belém Club (time dos ingleses) por 7 a 0. O torneio foi organizado pela Parah Foot-Ball Association.

No início do século 20, o futebol praticamente não era noticiado nos jornais paraenses. Mas na edição da “Folha do Norte” de 24 de dezembro de 1903, leitor identificado somente com as iniciais M. F. contestava, em carta, a coluna “Notas Sportivas”, que comentava o esporte como novidade no Pará. O leitor afirmava que “em 1896 se disputava com frequência partidas de futebol na praça Batista Campos entre os associados da Associação Dramática Recreativa Beneficente”. O jornalista Júlio Lynch - falecido em 1998 -, diante da declaração de M. F., argumentava que, para que existisse a prática regular do futebol em 1896 entre paraenses, seria necessário um aprendizado, provavelmente em anos anteriores, proporcionado por funcionários das empresas inglesas em Belém.

As pesquisas de Júlio Lynch, neto de um funcionário da Amazon Steam Navigation e descendente de ingleses, não foram levadas adiante. Antes de falecer, o jornalista tentava encontrar um senhor - de nome não conhecido pela família Lynch e não encontrado no espólio dele -, morador de Belém, que teria fotos e documentos sobre as primeiras partidas no Pará. Lynch era um defensor ferrenho de suas hipóteses: “Os ingleses já estavam aqui. Será que muitos deles preferiram esquecer um esporte que já dominava o Reino Unido, ou tão logo chegaram e começaram a praticar entre si, provocando o interesse dos brasileiros? Para que partidas fossem disputadas em 1896, por brasileiros, tudo leva a crer que bem antes de 1895 os aficionados teriam um aprendizado com os ingleses”, defendeu ele, em um de seus últimos artigos.

O jornalista Ferreira da Costa, uma das maiores autoridades sobre história do futebol no Pará, cita em seu livro “A enciclopédia do futebol paraense” os relatos do pesquisador F. F. Alves da Cunha, outro defensor do Estado como pioneiro na prática do esporte no Brasil. Segundo Cunha, a primeira partida foi disputada em 1892, por associados do Clube de Esgryma no largo de Nazaré, em frente à sede da associação – onde, posteriormente foi instalado o teatro Chalet e, depois, o cinema Moderno. “Aliados aos ingleses que aqui trabalhavam, os paraenses que regressavam da Europa contribuíram para a disseminação do esporte na capital do Estado”, argumentou o pesquisador, ao comentar o tempo em que era mais fácil chegar à Europa do que ao Sudeste do Brasil, com saída de Belém.

Transição

Ferreira da Costa argumenta que o desenvolvimento do futebol paraense foi tão acelerado entre 1910 e 1920, que despertou a atenção dos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, a precursora da CBF, entidade máxima do futebol nacional), instalada no Rio de Janeiro, então capital federal. Enquanto os paulistas se deleitava com os espetáculos do goleador Arthur Friedenreich, o primeiro ídolo do futebol nacional, os paraenses só falavam em Antônio Barros Filho, mais conhecido como Suíço. Astro do Paysandu, ele é considerado o primeiro atleta de um clube da Amazônia a ser convocado para compor a seleção brasileira. O jogador, que atuava em qualquer posição, participaria do Campeonato Sul-Americano de 1921, na Argentina, mas foi prejudicado pela corrupção que já começava a contaminar os dirigentes esportivos no país.

“A convocação de Suíço não se realizou porque a CBD sofreu um rombo de 150 mil contos de réis, por problemas administrativos, e não tinha dinheiro para comprar a passagem do jogador para o Rio de Janeiro, de navio, no Lloyd Brasileiro”, comentou Ferreira da Costa, ao acrescentar que o futebol paraense continuou a exportar craques de “primeira grandeza” para os clubes do Rio e São Paulo. “A qualidade desses atletas locais, com certeza”, aponta o jornalista e pesquisador, “é fruto de uma prática consolidada do futebol na região amazônica, algo que não se desenvolve em poucos anos”. Tanto que Remo, Paysandu e Tuna, clubes centenários e fundados no auge da Belle Époque na Amazônia, se profissionalizaram rapidamente e já tinham estrutura semelhante às maiores agremiações brasileiras quando os primeiros amistosos e torneios nacionais começaram a ser disputados.

Até a década de 1920, os clubes ainda eram reduto da elite, mas as atuações fantásticas de Suíço e outros jogadores ajudaram a implodir os muros que separavam o futebol da população em geral. Os jogadores, ainda sob a influência da empreitada colonizatória do foolball inglês, disputavam seguidos matches no campo da firma Ferreira & Comandita, com acesso restrito, mas a paixão pela bola já se espalhava pela periferia de Belém. O exemplo da capital paraense, encravada na floresta amazônica, respeitadas as suas particularidades, também se encaixa no histórico de expansão da modalidade em outras grandes cidades do país – com destaque para São Paulo, onde o futebol foi adotado pela classe operária. “É importante compreender como o futebol na capital paraense, pouco a pouco, foi ganhando graça popular, constituindo-se em motivo de lazer e transformado ao longo do século 20 na grande paixão entre os dois clubes da terra: Clube do Remo e Paysandu Sport Club”, ressalta a historiadora e mestre em História Social da Amazônia (UFPA), Sinei Soares Monteiro, autora de estudo sobre as relações políticas e sociais que envolveram o futebol paraense no período da ditadura militar.

E foi justamente a paixão do povo brasileiro – impulsionada também por estratégias políticas e econômicas – que proporcionou uma mudança de status do futebol nacional, a partir das conquistas dos mundiais de 1958, 1962 e 1970, imortalizadas pelos espetáculos proporcionados pelas gerações comandadas por Garrincha, Pelé e companhia: de colonizado a recolonizador. De mero espectador de facetas do processo civilizatório europeu a país do futebol.

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As marcas britânicas no futebol da Amazônia - parte 1 

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Inglaterra e Itália na Arena da Amazônia (divulgação/Fifa)

Mais de 100 anos após as primeiras partidas de futebol registradas no Norte do Brasil, a seleção inglesa encarou, na Arena da Amazônia, em Manaus, a manifestação de um fenômeno que o Império Britânico impulsionou: a paixão do brasileiro pelo futebol. O jogo contra a Itália, no dia 14 de junho passado, pela Copa do Mundo, simboliza um reencontro entre criador e criatura. O English Team fincou as travas das chuteiras pela primeira vez na região desde que os navios ingleses começaram a singrar pela bacia amazônica, na virada do século 19 para o 20, auge das relações comerciais do primeiro ciclo da borracha, trazendo chuteiras, bolas e uniformes na bagagem, dando início à “colonização do football”.

Na transição do Império para a Primeira República no país, a rota marítima Brasil-Inglaterra se intensificou no Atlântico Norte pela demanda mundial por borracha, produzida a partir do látex, matéria-prima até então extraída exclusivamente dos seringais da Amazônia. No vaivém de navios, um dos produtos mais valorizados pelas indústrias à época – de fabricação de suspensórios a itens de carros – era exportado para vários países. Como retorno, a região recebia uma circulação de dinheiro nunca antes vista e um choque de novos costumes, entre eles a prática do futebol moderno, uma febre em clubes e universidades ingleses.

Quando chegavam aos principais portos da Amazônia para receber toneladas de borracha, os navios ingleses traziam também equipamentos para infraestrutura – como galpões de ferro, motores e outras máquinas –, encomendas para os barões da borracha e, sobretudo, homens ávidos por disputar uma partida de futebol o quanto antes, após dias em alto mar. Bastava encontrar um local plano, de terra batida ou grama, para a bola correr. Eram os colonizadores em ação. Este ritual se repetia em várias cidades da região, quase sempre com uma intrigada plateia local. Contudo, pela pequena variedade de canais para registro, os relatos sobre os matches de várzea se perderam ao longo das décadas, sobrevivendo nas histórias contadas pelas testemunhas.

Esta característica da chegada do futebol à Amazônia reforça a argumentação do historiador brasileiro Hilário Franco Junior, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), sobre o desenvolvimento da prática da modalidade e em relação aos interesses do Império Britânico, que comandava o comércio mundial no início dos anos 1900. Ele prefere não buscar as origens do fenômeno de forma puramente relacionada às atividades esportivas do mundo antigo e da era medieval, como o calcio jogado na Itália entre os séculos 15 e 18, mas, sim, na direção da organização do football pelas universidades britânicas, entre as principais Oxford e Cambridge, com pitadas de darwinismo social: “Concepção pedagógica que pretendia desenvolver a fibra moral da elite britânica destinada a governar regiões longínquas e inóspitas, plena de súditos hostis e pouco civilizados”, aponta Franco Junior no livro “A Dança dos Deuses: futebol, sociedade, cultura” (Companhia das Letras, 2007).

A prática embrionária do futebol na Amazônia requeria a nacionalidade britânica. Somente após os anos 1900 brasileiros inciados começaram a receber o aval para compor os times amadores, desde que cumprissem uma série de pré-requisitos, entre eles trabalhar para alguma empresa inglesa instalada na região, ter estudado em universidades da Europa ou até mesmo pela influência do poder econômico e classes sociais. Partidas de futebol eram arenas de negócios, a exemplo do esterótipo atual das quadras de tênis e campos de golfe dos principais centros comerciais do mundo, lotados de executivos. Disputar um jogo ao lado dos estrangeiros no primeiro ciclo da borracha poderia garantir parcerias econômicas extremamente lucrativas – além de distinguir socialmente o iniciado.

Relato registrado por periódico paraense do início do século 20 – que pode ser encontrado no livro “A História do Clube do Remo”, do historiador Ernesto Cruz – confirma esta peculiaridade da relação ingleses-brasileiros em Belém, cidade com um dos portos mais movimentados do mundo à época: “Efetuou-se no domingo, 11 de março de 1906, às 4,30 da tarde, um jôgo de futebol entre dois bons disputantes. A partida foi realizada na praça de S. Braz, estando os dois conjuctos assim formados: Lloyd; Redigg e Clissold; Wright, Melio e White; Dehr, Balley, Compton, Delfim Guimaraes e A. Andrade. O outro conjucto disputante foi este: Bill Balley; Timbridge e Breach; Wesley, Ruiz e Borges; J. Borges Alves, C. Andrade, P. Palmério, D. Danin e Weitzman. Diziam os jornais daquele tempo que o time que tivesse Lloyd no goal sairia vencedor”.

Para o historiador e doutorando em História Social da Amazônia – pela Universidade Federal do Pará (UFPA) – Itamar Rogério Pereira Gaudêncio, o relato mostra que os praticantes locais do futebol buscavam uma identidade europeia, moderna e progressista que suprimisse o atraso que regiões como o Norte do país possuíam, de acordo com o discurso dominante no período. “Até os próprios materiais que eram importados para a prática futebolística, assim como uma série de outras mercadorias que eram comercializadas na nossa região, representavam uma tentativa de hegemonia cultural europeia que existia através da chamada circulação de capital simbólico, ou seja, o capital financeiro que circulava em Belém também era acompanhado de mercadorias que representavam o modo de vida europeu, simbolizando o que existia de mais progressista e moderno na época, no sentido de costumes e tradições que tentavam submeter à cultura local”, analisa o pesquisador na dissertação “Diversão, rivalidade e política: O Re-Pa nos festivais futebolísticos em Belém do Pará (1905-1950)”.

Pelejas semelhantes às de Belém também passaram a ocorrer em Manaus, capital do Estado do Amazonas, outra cidade estratégica no mapa do ciclo da borracha. Diversos relatos apontam que ingleses que residiam temporariamente na cidade costumavam jogar futebol nas proximidades do igarapé do Mindu, onde atualmente está instalado o Parque dos Bilhares. A movimentação de marinheiros, empresários e despachantes estrangeiros começou a chamar a atenção dos manauaras por volta de 1906, com a posterior inauguração da Sede dos Ingleses e do Bosque Clube. Na primeira década do século 20, o futebol chegou ao extremo ocidente da Bacia Amazônica, descendo pelo rio Madeira.

Em 1907, no recém criada cidade de Porto Velho - que se tornou capital do Estado de Rondônia somente em 1943 -, um tipo de futebol adaptado às agruras da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré começou a ser disputado por operários e funcionários da Railway Company, empresa responsável pela controversa obra. Histórias sobrevivem no imaginário local, mas carecem de comprovações: enquanto homens derrubavam parte da floresta e fincavam estacas, outros, provavelmente em raros momentos de folga, jogavam com bolas de látex, em antigos seringais.

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Progresso: meios e fins justificáveis

O cada vez maior distanciamento entre o homem e a natureza tem reforçado a ideia de que os recursos que movem as grandes cidades e metrópoles mundiais são inesgotáveis. O ser humano extremamente urbano e agora com comportamento voltado a uma esfera pública digitalizada, contraditoriamente, ainda carece de informações sobre como sua pegada no planeta pode interferir, isolada ou coletivamente, no ecossistema no qual está inserido.

Este fenômeno é latente em regiões de fronteira econômica, como a Amazônia, onde as atividades produtivas avançam sobre a floresta e trazem de carona a ampliação dos aglomerados urbanos e suas lógicas de reprodução social.

As cidades amazônicas são exemplo certeiro do comportamento de mercado que domina as relações sociais e encobre o conceito de prosperidade a partir de um viés economicista. Mas como essa questão é observada na prática? Vejamos: uma família de uma comunidade do interior consegue comprar uma máquina de lavar a muito custo, tem uma sensação de inserção na modernidade, mas, por outro lado, não possui água encanada ou sequer potável a dezenas de quilômetros. Moral da história: o consumo é uma variável que pode, sim, ser agregada à construção do desenvolvimento, mas atualmente reina isolado.

Seguindo esta lógica, se cada morador da Amazônia ou de outras regiões em desenvolvimento no Planeta tivesse um padrão de consumo similar ao de um europeu ou norte-americano de classe média-alta, o impacto ao meio ambiente seria elevado exponencialmente. Essa dicotomia mostra que classes privilegiadas e dominantes – sobretudo os governantes – precisam repensar seus hábitos, sob pena de que o cidadão de áreas periféricas do sistema capitalista não possa ter acesso aos benefícios da modernidade. E, mais importante ainda, que o mundo não consiga suportar o ritmo – e não nos faltam exemplos de fadiga da natureza diante de intensiva pressão. Afinal, qual legado pretendemos deixar para o futuro?

Essa discussão reforça a importância das variáveis moral, coletividade e igualdade para o conceito e a prática em busca do desenvolvimento. A igualdade não pode estar baseada nos padrões atuais de consumo, de extremo luxo, mas, sim de uma visão justa: não o que “quero ou consigo consumir”, mas “o que eu necessito”. O desafio da consciência ambiental vai além de escolhas do dia a dia, como reutilizar plásticos, reduzir o consumo de energia ou comprar produtos menos agressivos ao meio ambiente. É uma batalha política, educacional e cultural que deve ser levada adiante contra excessos provocados pela lógica capitalista em busca do lucro, proporcionando crescimento com meios e fins inadequados.

Felizmente, existe uma corrente contrária, com iniciativas inspiradoras: prêmio Nobel de Economia em 1998, o indiano Amartya Sen, um dos responsáveis pela criação do conceito de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) pela ONU, faz a defesa do “desenvolvimento como liberdade”. Para ele, renda e riqueza são meios e não fins; na mesma linha, o economista bengali Muhammad Yunnus, prêmio Nobel da Paz em 2006, criou o Grameen Bank, mais conhecido como Banco dos Pobres, que oferecia crédito em pequenas quantias para que agricultores de Bangladesh não suspendessem suas produções; na década de 70, o rei Wangchuck do Butão propôs a criação do Índice de Felicidade Interna Bruta - em oposição ao PIB, ligado às riquezas econômicas -, que alia o desenvolvimento espiritual e material. Para eles, harmonia com o meio ambiente, liberdade e felicidade são fins. Bem-estar que não depende da lógica do mercado.

Foto: Oswaldo Forte (www.flickr.com/photos/oswaldoforte)

brazilwonders:

"Dois séculos de dívida pública", do pesquisador Guilherme Antonio Ziliotto, disponível para download gratuito. Clicou, baixou. http://goo.gl/Q1gupR

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"Dois séculos de dívida pública", do pesquisador Guilherme Antonio Ziliotto, disponível para download gratuito. Clicou, baixou. http://goo.gl/Q1gupR

nationalaquarium:

Thoughtful Thursday: It’s clear to see that water defines our world. 
Did you know? While a staggering 97.5 percent of our planet’s water is saltwater, only 2.5 percent is freshwater! 

nationalaquarium:

Thoughtful Thursday: It’s clear to see that water defines our world. 

Did you know? While a staggering 97.5 percent of our planet’s water is saltwater, only 2.5 percent is freshwater

brazilwonders:

Considerado um dos mais importantes escritores do século 20 e um dos mais renomados autores latinos da história, o escritor colombiano Gabriel García Marquez morreu nesta quinta-feira (17).
Marquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra. Foi o primeiro colombiano e quarto latino-americano a receber o prêmio, e, na ocasião, agradeceu com um discurso intitulado “A solidão da América Latina” 
"Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.
Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra. “ - Trecho do seu discurso ao vencer o Nobel de Literatura em 1982.

Dia de tristeza.

brazilwonders:

Considerado um dos mais importantes escritores do século 20 e um dos mais renomados autores latinos da história, o escritor colombiano Gabriel García Marquez morreu nesta quinta-feira (17).

Marquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra. Foi o primeiro colombiano e quarto latino-americano a receber o prêmio, e, na ocasião, agradeceu com um discurso intitulado “A solidão da América Latina” 

"Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra. “ - Trecho do seu discurso ao vencer o Nobel de Literatura em 1982.

Dia de tristeza.

Tags: heroi

A (in)sustentável leveza da biodiversidade

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Foto: masonresearch.gmu.edu

O engenheiro de pesca Marcelo Andrade, da UFPA, estava em uma área de cachoeiras do rio Trombetas, no oeste do Pará, quando se deparou com um peixe diferente. Imediatamente o sinal de alerta do pesquisador entrou em ação: poderia ser uma nova espécie. Mas foram necessários cinco anos para que ele pudesse afirmar, depois de exaustivo trabalho de taxonomia, a existência da piranha herbívora da Amazônia. Batizada de Tometes camunani por Marcelo, a nova espécie foi apresentada ao mundo da ciência em um artigo publicado pelo periódico Neotropical Ichthyology, em junho deste ano. Pouco tempo depois, a descoberta foi apontada pela ONG ambientalista WWF como uma das mais importantes ocorridas na região nos últimos quatro anos.

Além da piranha descrita por Marcelo, que dispensa carne e se alimenta de ervas aquáticas, outras 440 espécies foram encontradas no bioma Amazônico nos últimos anos - 258 espécies de plantas, 83 de peixes, 58 de anfíbios, 22 de répteis, 18 de aves e uma de mamífero. Estas pesquisas foram recentemente acrescentadas ao relatório “Amazônia Viva: uma década de descobertas”, da Rede WWF, que compila cerca de 1.200 estudos publicados em periódicos científicos reconhecidos sobre novas espécies relatadas entre 1999 e 2009.

O documento reforça a posição da Amazônia como uma das regiões que abrigam a maior biodiversidade do planeta. Considerando os dados da Rede WWF, em pouco mais de 10 anos, uma nova espécie foi descoberta no bioma a cada três dias, com detalhes que deixaram cientistas tarimbados muito surpresos. Os filhotes do macaco Callicebus caquetensis, por exemplo, ronronam um para o outro, como se fossem gatinhos, quando estão satisfeitos. Já a palmeira Syagrus vernicularis “produz” miojo – na verdade, os botões floridos da árvore lembram o emaranhado do macarrão instantâneo. 

Mas o caldeirão que abriga toda essa megabiodiversidade pode ser muito delicado, aponta o estudo Hyperdominance in The Amazonian Tree Flora, publicado em outubro na revista Science, que faz um inventário da diversidade de espécies de árvores da Pan-Amazônia. A pesquisa, realizada por uma centena de cientistas das principais universidades do mundo, identificou cerca de 16 mil espécies. Surpreendentemente, as 227 mais frequentes são responsáveis por 50% de toda a cobertura arbórea da bacia amazônica - que abrange, além do Brasil, Peru, Colômbia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. O açaizeiro (Euterpe precatória) é o líder das árvores hiperdominantes.

O estudo, desenvolvido ao longo de uma década, também calcula que 10 mil espécies - a metade delas muito raras - cobrem somente 0,12% da floresta amazônica. Baseados nestes dados, os cientistas acreditam que a flora da região pode ser mais frágil diante de mudanças climáticas e da ação do homem. Se, por algum motivo, o ambiente se tornar adverso para algumas das espécies hiperdominantes, a tendência é de que a maior parte da cobertura florestal sofra sérios danos, com impactos relevantes sobre o ecossistema amazônico - a casa de milhares de espécies, além de 30 milhões de pessoas. Estes levantamentos, mais do que nunca, reforçam a importância do investimento em pesquisas na região. O futuro da Amazônia precisa ser delineado agora.

@thiagoabarros

"É preciso que a leitura seja um ato de amor"
Paulo Freire

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